BELLE ÉPOQUE: Nostalgia parisiense na elite carioca do século XX.
Janaína Rios.
“O progresso [...] envaidecera a cidade vestida de novo, principalmente inundada de claridade, com jornais nervosos que a convenciam de ser mais bela do mundo... [...] Era a transição da cidade malsã para a maravilhosa.”
Pedro Calmon
Resumo
Este artigo busca evidenciar as mudanças ocorridas no cotidiano da elite carioca no início do século XX. Influenciado pelas revoluções ocorridas na Europa e suas novas condições de vida, o Rio de Janeiro figurava como a “cidade maravilhosa”, eram os “belos tempos brasileiros”. Luxo, glamour, exibição de poder, viabilizavam o desejo de acompanhar todos os ditames franceses. A inspiração parisiense, transformava a realidade da Metrópole brasileira, que mais parecia “um pedaço da Europa”.
Palavras-chave: Transformação / Cotidiano / Influência / Elite.
No final do século XIX, A Europa passava por intensas transformações, tendo como protagonistas a França e a Inglaterra. Desde a Revolução Industrial no século XVIII, dando inicio ao surgimento das fábricas, e um pouco mais tarde no século XIX com a Segunda Revolução Industrial, as peças do tabuleiro tomaram novas posições e o mundo tornava-se palco das mais variadas mudanças. Foi o momento de despontar novos costumes e idéias, adequadas as recentes condições de vida proposto pelo crescente capitalismo. A ideologia capitalista de modernidade e de grande consumismo espalhou-se de forma significativa por toda a Europa e paises de outros continentes.
[...] nunca em nenhum período anterior tantas pessoas foram envolvidas de modo tão completo e tão rápido num processo dramático de transformação de seus hábitos cotidianos, seus modos de percepção e ate seus reflexos instintivos.
Muitos foram os reflexos dessas transformações aqui no Brasil. No final do século XIX o país deixava o sistema escravocrata e passava pela transição da Monarquia para a República.
A França serviu de inspiração nos mais variados setores políticos e sociais brasileiro. A implantação da República foi sonhada à modelo francês, ”[...] o estandarte da liberdade [...] no meio da praça pública, ao som da Marselhesa, proclamando a soberania popular”.
Muitas foram às críticas quanto à participação popular no processo de introdução republicano, justamente por não ter ocorrido exatamente como na França. Buscava-se o mesmo roteiro “encenado” pelos franceses, não levando em conta, claro, que o cenário era outro e a realidade do Brasil não era a mesma da França, por mais que houvesse inúmeras semelhanças.
Muitos outros ideais franceses foram importados pelos brasileiros. A figura feminina representando a República foi uma das importações francesas trazidas para o país. A Monarquia, no período anterior era representada pela imagem do rei, simbolizado o seu poder e autoridade, um verdadeiro contraste com a figura da mulher, símbolo da liberdade, a alegoria republicana,
A maioria das representações femininas, à época da proclamação já tinha traços fin-de-siècle. Salientavam a sensualidade, a beleza a fragilidade da mulher. Era mulher da sociedade urbana carioca, se não parisiense tornando objeto de consumo [...].
O Rio de Janeiro, a então capital do Brasil, figurava entre as cidades que buscavam o glamour francês, la Belle Époque, Bela Época (do francês) ou belos tempos, caracterizada pelas mudanças culturais, nos costumes, no cotidiano, no vestuário, nas artes, na arquitetura e principalmente no pensamento humano.
A elite brasileira buscava o rompimento com tudo que estivesse vinculado com o passado imperial do país, numa tentativa de eliminar tudo ou até mesmo todos que trouxessem lembranças das condições de atraso, notáveis nos espaços urbanos com amontoados de casas, a superlotação dessas habitações, e o alastramento de epidemias. (MARINS. 1998)
Para se entender melhor a situação do Rio de Janeiro e o caos que a cidade enfrentava no início do século XX, é preciso ressaltar que algumas décadas antes, com a libertação dos escravos, muito desses libertos deixaram o campo e migraram para as cidades. Consequentemente surgiram inúmeras moradias não planejadas e a ocupação de antigos casarões formando os cortiços, que não ofereciam condições básicas de higiene para esses moradores.
Essa “bagunça” estrutural da cidade do Rio, possibilitava a divisão de espaço entre mansões luxuosas, casas comerciais e precários cortiços. A alta sociedade e os menos favorecidos cruzavam-se constantemente nas estreitas ruas cariocas. Situação que se tornou insuportável para elite.
Porém, não foram à piedade e o bom senso que levaram os governantes a tomarem medidas drásticas quanto a esse problema social. A imagem da cidade estava totalmente comprometida com tanto desleixo e desordem nas ruas da capital.
[...] Acusadas de atrasadas, inferiores e pestilentas, essas populações seriam perseguidas na ocupação que faziam das ruas, mas, sobretudo seriam fustigadas em suas habitações.
Na tentativa de limpar a imagem da cidade, foi instalado o “bota - abaixo”, onde os moradores indesejados foram despejados de suas moradias. Os cortiços e casarões que não serviam de “ornamento” para a cidade foram demolidos.
A destruição de casas, no Brasil, e a expulsão de seus habitantes foram mais um reflexo do que aconteceu na França, onde “milhares de unidades habitacionais foram destruídas em Paris à custa de desapropriações [...]”.
Iniciaram-se as reformas na cidade, que teve como marco a abertura da Avenida Central, atual Avenida Rio Branco, que despertou encanto na elite carioca por seu estilo, como descreve Sevcenko,
[...] Contemplado com um concurso de fachadas que a cercou de um décor arquitetônico art nouveau, em mármore e cristal, combinando com os elegantes lampiões da moderna iluminação elétrica e as luzes das vitrines das lojas de artigos finos importados.
O brilho francês tomava os ares da capital brasileira, que buscava a glória da modernidade nas reformas da cidade. Luxuosas casas seguiam o padrão europeu. Havia uma crescente preocupação, por parte da elite, em mostrar todo seu poder aquisitivo, através da arquitetura que esbanjava grande elegância. Ruas alinhadas, palacetes luxuosos, mansões que exibiam magníficos jardins. Construções que desfrutavam de belos muros, ou mesmo um gradil muito bem trabalhado.
Esbanjando elegância e comodidade, “Petrópolis permanecia como referencia de bem viver, uma pequena Europa serra acima, ornada de elaboradas moradias neoclássicas e ecléticas [...]” . Um refúgio para os mais afortunados nos fins de semana, que procuravam o deleite em clima europeu.
A ostentação de poder continuava nos espaços internos das casas da elite carioca. Grandes salões com objetos decorativos vindos da Europa, mostravam comodidade e requinte, “[...] os salões da Belle Époque caracterizavam-se como teatro de variedades cuja programação comportava a declamação de poesias, a execução de peças musicais e de canções, entremeadas de contratos, conversas e formas prestigiosas de consumo [...]” . Havia uma valorização na decoração desses interiores, com o uso papeis de parede, folhas de portas e janelas, pinturas ornamentais de forro e abusavam ainda nas tapeçarias, pomposos espelhos, cortinas e mobiliário sofisticado. (SCHAPOCHNIK, 1998).
A importância desses aparatos, a adoção de jardins, de vilas pompeanas, demonstrava a valorização pela cultura européia e de uma forma especial parisiense. Era a fantasia de viver na própria Paris.
Tal reflexo não poderia deixar de influenciar nas indumentárias da elite carioca. O exagero reinava nos trajes femininos, com abuso no volume, nas pérolas, penas, babados, vestidos talhado ao denier cri, jupe-culotte (saia calção). Contando ainda como acessórios “estavam sombrinha, bolsa e chapéu [...] taillers, os soutiens-goge e os dessous bordados e rendados que proporcionavam uma nova silhueta ao corpo feminino” . O espartilho, exageradamente apertado, dava o toque elegante à vestimenta. Rapazes, também, exibiam finos trajes de cortes ingleses.
Todos de forma impecável, desfilavam com seus trajes franceses, e “ao se cruzarem no grande bulevar não se cumprimentavam mais à brasileira, mas repetiam uns aos outros: ‘Vive la France! ’”.
A França não era apenas a capital da moda, influenciava também, nas artes plásticas e obras literárias, “em plena Belle Époque, os nossos escritores eram costumeiros importadores culturais da França” . Buscavam inspiração à moda francesa.
Mesmo com todos os conflitos existentes no Brasil, e muitos desses gerados pelo próprio desejo de progresso, esse foi um período marcado pelas transformações no cotidiano da elite carioca, que almejava desfrutar os benefícios da glória que envolvia os paises europeus.
Para a elite carioca viver à sombra da grande Metrópole mundial, trazia o tão sonhado glamour francês, a realização de se viver em uma cidade “civilizada”.
A modernização dava ao Rio de Janeiro uma nova imagem, com requinte e bom gosto. O bem estar da elite, a Paris brasileira, a “cidade maravilhosa”
A Belle Époque brasileira caracterizou-se pelo luxo e ostentação demonstrada pela classe alta, momento que evidenciou a beleza das primeiras décadas do século XX. A cidade das luzes refletiu, de forma significativa, sobre as elites brasileiras, tornando-se o objeto de consumo, desejada e amada, a veneração da alta sociedade carioca.
REFERÊCIAS.
CARVALHO, José Murilo. A Formação das Almas: o imaginário da República no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.
CARVALHO, José Murilo. Os Bestializados: o Rio de Janeiro e a República que não foi. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.
MARINS, Paulo César Garcez. Habitação e vizinhança: limites da privacidade no surgimento das metrópoles brasileiras. In História da Vida Privada. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
SCHAPOCHNIK, Nelson. Cartões-postais, álbuns de família e ícones da intimidade. In História da Vida Privada. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
SEVCENKO, Nicolau. O prelúdio republicano, astúcias da ordem e ilusões do progresso. In História da Vida Privada. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
VEIGA, Cláudio. Um brasilianista francês: Philéas Lebesgue. Rio de Janeiro: Topbooks: Salvador, BA: Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1998.
Achei bastante relevante esse tema pois descreve bem a influência francesa na sociedade brasileira,principalmente na carioca onde a elite passa a copia o modelo francês de vestir,de falar ,na cultura, urbanização etc.Porém como e de nosso conhecimento sabemos que todo esse processo teve uma custo muito alto para a maioroa da população carente.gostei muitooo.
ResponderExcluirOlá Jana, muito interessante esse artigo principalmente porque mostra um período do brasil em que a vontade de desenvolvimento é notória, assim veste se a camisa da europa de modo que absorve todas as influências européias sem considerar a realidade que é o Brasil, de modo, que o espírito das pessoas é o que descreve todo o contexto desse período.
ResponderExcluirEra a França no Brasil. Um Brasil francófilo dominado pela cultura e costumes do país europeu, com o uso de palavras chiques do, na época, idioma universal e obrigatório às classes abastadas e aos intelectuais. Até "cair a ficha" com a depressão, foram tempos luxuosos e de virtuosismo consumista.
ResponderExcluirCertamente esta iniciativa de pesquisa a aprtir de Abrolhos é algo de que nós necessitamos enquanto brasileiros. Uma vez que devemos valorizar aquilo que está próximo de nós na tentativa de preservar a cultura de nossa região. E é com novos olhares sobre este patrimônio que você poderá contribuir com a região e com a universidade, pois iniciar uma pesquisa neste campo é o desafio mas também uma oportunidade de desvendar e revelar fatos históricos.
ResponderExcluirEssas transformações para se seguir uma etiqueta de ciddae européia teve um preço muito alto, pois nem todos foram beneficiados, e certamente houve vários excluídos no qual foram totalmente isolados desse momento tão deslumbrante no imaginário daqueles que viveram no Rio de Janeiro rumo a modernidade.
ResponderExcluirÉ bastante interessante esta tematica ,pois nos permite uma visão sobre o quanto a sociedade brasileira esta abarrotada de costumes franceses,americanos entre outros...
ResponderExcluirSeu artigo ficou muito bom, você retratou bem as transformações que ocorreu na vida da elite carioca e quanto elas foram influenciadas por modelos europeus.
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